quarta-feira, junho 30, 2004

AQUI ESTOU

Tinha amado demais e exigido demais, e tudo consumido.
As neves de Kilimanjaro
ernest hemingway

Não sei onde mora, nem o que faz. Não sei nada. Alguém me disse que se casou com um psiquiatra milionário, que vive na zona de Cape Cod, que engordou muito. Não sei. Caí em um estado depressivo que durou anos. Foi terrível e não quero lembrar aquele tempo : depressivo, furioso, raivoso, descontrolado, bêbado o dia inteiro, sem comida, sem dinheiro, claustrofóbico, com intenções suicidas, todos os dias trepava com uma negra diferente. Às vezes, pegava chatos. Procurava as mais vulgares e prosaicas do meu bairro. Gostava de bater nelas quando já estava dentro, e elas ficavam arrebatadas com o meu sadismo. Talvez isso tenha me salvado : as bebedeiras, as mulheres, soltar a fúria, mandar tudo à merda, não esperar nada de ninguém. E escrever. Nas madrugadas, bêbado, escrevia contos de tudo o que me acontecia. Era divertido. E continuei. E aqui estou.
O insaciável homem-aranha
pedro juan gutiérrez



Lá no Bexiga, bebendo pinga, pensei ter visto um ex-amor, de longe. Sei que ela está morando em São Paulo agora, e a cidade ficou pequena para sua lembrança.

Na verdade estou cansado, muito cansado.

Queria mesmo era beber todas as cachaças do Bexiga, beijar todas as putas, rir com todos os veados, chutar latão de lixo e calar a minha boca. Preciso, urgentemente, calar a minha boca! E em cada inferninho da Augusta, embalado no som do bolero, eu preciso refazer meu peito, desvelar meus olhos, sentir meu cheiro e entender um pouco do que se passa dentro da minha cabeça.

Minhas costas estão arrebentadas e um molar deu pra apontar uma dor aguda. Ainda hoje quero aparar minha barba e mudar um pouco o rosto do espelho, pois tenho vontade de urinar naquela imagem toda manhã. Também quero fechar todas as entradas de luz do meu quarto e me encerrar no escuro pra dormir um pouco, sonhando com mulheres peladas, ritmo de pandeiro e um milhão de sorrisos no rosto. Quem sabe um pouco de carinho.

Tenho dissimulado com tanta habilidade que chego a ficar pasmado. O irônico é que minhas idéias acerca de uma barbárie interior alheia acabam sempre batendo nos meus sentimentos, deixando claro que o selvagem da teoria sou eu.

Entreguei o calhamaço e suas cópias na universidade com um asco refinado. Mais um amontoado de papéis inúteis, reconhecidos por uma valorosa instituição, mas totalmente inúteis. Se eu não estivesse de ressaca passaria uma cantada sórdida na mocinha que despachava a papelada, mandando o sacerdócio dos intelectuais para o inferno. E ainda dizem que escrever ajuda a entender seus problemas e se situar no mundo. Devo ser mesmo uma besta, pois comigo funciona tudo errado, já que a cada dia estou mais perdido, solitário e confuso.

Já no terreno aberto, esperando ônibus, consegui me encostar num canto para respirar um pouco de ar fresco. Tinha uma azia riscando o ventre que estava me deixando maluco. Soltei uma baforada de ar, quase num suspiro estúpido, e voltei a pensar que sempre fui assim, que não poderia ser diferente. E resolvi voltar a escrever.

E continuei. E aqui estou.

MINHA VIDA COR-DE-ROSA

Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido.
Por uma outra Globalização
milton santos


Estou ouvindo Nelson Cavaquinho. Mereço esta delícia, fechando os olhos, se estendendo no chão e cantando. Estou ouvindo Nelson Cavaquinho.

Impressionante como as coisas vão seguindo na minha vida cor-de-rosa. A impressão que tenho é que já fui melhor em tudo, ou quase tudo. De certo já fui um melhor amigo, melhor cantor, melhor parceiro e melhor sonhador. Sem exageros, creio que só progredi no copo, no cinismo e, lógico, na gigantesca idiotice carimbada na minha cara.

O que me dói é sentir que já fui melhor como homem. Isto sim, machuca.

domingo, junho 27, 2004

CORAÇÃO PAULISTA

Lembro do dia que meus pais me levaram até a usp para a matrícula no curso de História. De uma forma bastante humilde e passional, pedi lincença ao gigantesco caos urbano que conheci, querendo me colocar no meio daquela zona.

Amanhã estou indo para Sampa novamente. E, em silêncio, fico pensando em tudo que aprendi e vivi naquela cidade maravilhosa. Tá difícil ficar longe; tá difícil voltar pra lá...

Nas vezes que estive com o peito arrebentado, sua bagunça foi o meu melhor amigo e aliado... Quero força, mais uma vez, São Paulo... Quero força!


AUGUSTA, ANGÉLICA E CONSOLAÇÃO
tom zé

Augusta, graças a Deus
graças a Deus
entre você e a Angélica
eu encontrei a Consolação
que veio olhar por mim
e me deu a mão.

Augusta (que saudade)
você era vaidosa
e gastava o meu dinheiro
com roupas importadas
e outras bobagens.

Angélica (que maldade)
você sempre me deu bolo
e até andava com a roupa
cheirando a consultório médico
Angélica.

Quando eu vi
que o Largo dos Aflitos
não era bastante largo
pra caber minha aflição
eu fui morar na Estação da Luz
porque estava tudo escuro
dentro do meu coração.

FLOR DE OBSESSÃO

Ontem passei mais um dia sozinho, em grande silêncio e descanso. Lavei os pratos, fui passear com meu cachorro, assisti (pela décima vez) o DVD do Ira!, revisei minha dissertação e, no final da tarde, preparei duas doses de mojitos e fiquei olhando o céu, sentindo a respiração.

Até queria sair, por a cara na rua e encontrar uma boa gente para rir um pouco da vida. Não foi possível. Peguei meu violão e fiquei tirando um som até altas horas, relembrando umas músicas minhas, tentando fazer outras e, com maior entusiasmo, roubando tudo que me agrada nos outros. Imaginei que Envelheço na Cidade poderia ser minha, já que nasci no dia 25 de Janeiro, aniversário de São Paulo, e sou maluco pelas coisas do Edgard Scandurra. O que eu mais gosto desta canção é o sentido que ela dá para quem se sente meio careta, coisa estranha, sem muito referencial no tempo e espaço:

Mais um ano que se passa
Mais um ano sem você
Já não tenho a mesma idade
Envelheço na cidade
Essa vida é jogo rápido
Para mim ou pra você
Mais um ano que se passa
E eu não sei o que fazer.


Não tem como evitar. Acabo sempre pensando no descompasso e na bagunça que está a minha vida, meio que um trem fora dos trilhos... mas correndo ainda! Não vou me pintar de vítima, já chega, o que eu estou tentando dizer é outra coisa, bem diferente. Envelhecer e amadurecer não está sendo fácil (nunca foi): a vida fica mais cara, a comida mais saborosa, a cerveja mais apreciada e as mulheres mais bacanas; em contrapartida os amigos ficam mais distantes, a solidão muito mais presente e as lembranças aparecem com força. E eu insisto no violão, mais um ano que se passa, e eu não sei o que fazer.

Na Sexta sai com um velho amigo, Mauro Oyama. Esse rapaz é uma figura! Além da conta elevada (seis garrafas da Bohemia de trigo e outros aperitivos sortidos), ganhei um afago maduro e muita alegria na cabeça. Consegui refrescar as idéias e, finalmente, deixar minha máscara de lado para voltar a ser o poço de exagero, ou nos ditos rodrigueanos, a flor de obsessão que tenho a sorte de comportar. E o bacana é que o Mauro me reconhece exatamente assim, não censurando qualquer contradição, querendo ver o brilho que eu carregava nos olhos.

O assunto preferido da bebedeira foi, como não, as mulheres. E ficamos debatendo horas, cada um abrindo seu peito, de par em par, refletindo com ajuda do fermentado de trigo. Acabei entendendo que para algumas das minhas paixões antigas eu fui homem demais; acabei aceitando que para outras eu simplesmente não fui! E, sem o menor pudor, assumi todas as dores e os caprichosos destas experiências, reconhecendo que tudo o que carrego hoje de bom foi transformado com elas.

E neste Domingo, acolhido na sombra da preguiça, fui despertado por minha mãe com uns enrolados de goiabada que eu adoro. Meus pais chegaram da praia com as feições descansadas, fiquei feliz, estava com saudade. Tive vontade de telefonar para alguns amigos e dizer coisas bacanas... passou quando lembrei do violão. Queria fazer serenatas, queria telefonar, queria sair correndo, queria fazer guerrilha, queria fundar país, queria encontrar com ela, queria publicar meu livro.

Por ora eu fico com o violão!

sexta-feira, junho 25, 2004

MINHA BANDEIRA DE GUERRA

Nem acredito, mas terminei ontem (próximo das quatro da maduga) de redigir meu Memorial de Qualificação. Agora o texto vai para as mãos do meu orientador para ele corrigir; enquanto isso eu também fico na revisão. De qualquer forma, o texto já nasceu e me trouxe alguma alegria.

Estudo este tema (a idéia de um cosmopolitismo no Império Romano) desde 1999, quando comecei um programa de Iniciação Científica; de lá pra cá foram muitos livros, artigos, congressos, relatórios, pedidos de bolsa e horas na frente do computador!

Escrever não está sendo fácil, e até o final do ano sei que vou passar por mais alguns tropeços. É estranho, pois fico num contínuo estado de excitação: você persegue uma idéia, junta com muitas referências de outros intelectuais, faz um quadro geral daquilo e fica matutando um bom tempo; na ação de escrever estas idéias precisam ser ordenadas e traduzidas, literalmente “sair da cabeça” para formarem um texto lógico e original. É extremamente excitante quando as idéias se intercalam em frases, e estas frases conseguem formular uma hipótese explicativa. Nessas horas sou invadido por uma imensa força criativa da qual sou o protagonista, o diretor, o autor; uma felicidade de compor uma reflexão que nasceu de um trabalho duro e lento, por isso mesmo ela é densa e violenta.

O complicado é, depois de tanta felicidade, sair do transe e olhar pro lado, sem encontrar nada além da tela iluminada do computar, um som baixinho do Miles e muita saudade por todos os lados. E sinto que não valeu tanto esforço, pois na minha humanidade mais íntima eu não tenho ninguém para explodir com tanta felicidade que eu fui criando.

Mas não tem revolta, não. Como me ensinaram mesmo? “Tem que aprender a viver um dia de cada vez”. Pois é, e mesmo assim não está sendo fácil!

Mas a razão deste texto não é bem esta... Quero dizer que estou terminando o meu “livro”, que mais da metade dele já está pronto e que minha pesquisa está me levando em direção de um entendimento maior do nosso mundo. E isto tudo é muito bonito!

Estava imaginado que seria bacana colocar algum poema nas páginas iniciais da Dissertação final. Penso em muita coisa, música do Ira!, lamento do Adoniran, palavras do Che, rimas do Pessoa, enfim, tenho tempo para decidir até o final do ano, com a defesa. Mas encontrei uma outra possibilidade ontem, ou melhor, este texto me agarrou ontem, na madrugada fria. Bandeira, meus amigos!

(E acho que vou colocar este mesmo!)


CANTIGA
Manuel Bandeira

Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d’alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.

BEIJOS PRA TORCIDA

BEIJOS PRA TORCIDA

Tinha planejado escrever um texto sobre minha recente “investida” no Rio de Janeiro, mas vou ter que adiar, mais uma vez, o projeto.

Recebi algumas mensagens, muito amorosas, de um ex-amor. E como doeu saber que ela não gosta mais de mim, quando na verdade penso que nunca gostou realmente. Doeu fundo.

E agora eu não sei bem o que fazer...

Tentei fugir, correr ou, ao menos, telefonar. Mas a Maria não estava, nem a Pimenta se encontrava, assim como meus poucos amigos se mostram cansados da minha sensibilidade. E como não encontrei saída, dobrei o som e cantei todas as músicas do Edgard Scandurra que eu sonho serem minhas.

E beijos pra torcida!

OS OLHOS DE JUDITE

Faltam os olhos – digo – os olhos!
Os olhos de Judite, minha personagem alemã
Com seus patins vermelhos e calças rompidas.
Cabelos longos e beijo quente.
Respiração intensa com aparente calma.
Faltam os olhos, os olhos de Judite.

É nela que tudo começa, que tudo inicia, que tudo principia.
Judite me fez homem, tirou meu cabaço, comeu minha vergonha
Tomou meu resfriado, esquentou a comida
Fez um quintal no meu quarto e rebaixou a partida.
Judite fez de mim o que eu não consigo ser!
E é nela que tudo começa, que tudo inicia, que tudo principia.

Bem lhe disse sobre o Brasil; mas o que é Brasil?
Pedi para vir ser mulher nas terras morenas
Nas bocas de noite
Nos bairros inundados de lodo e boemia.
Falei pra Judite que aqui se mata por pouco dinheiro
E se morre de paixão.
Falei, Judite, falei.

Bem que lhe disse sobre o amor; mas o que é amor?
Pedi pela tarde, beijando e trocando
Salivas antigas de outras paixões.
E a sua presença, seu peso macio
Roçando a carícia, calando o afoito.
Pedi pela tarde, Judite, pedi
Mas você partiu.

Faltam os olhos – digo – os olhos!

TRAIN IN VAIN STAND BY ME

The desert is not remote in southern tropics,
The desert is not only round the corner,
The desert is squeezed in the tube-train next to you,
The desert is in the heart of your brother.


Choruses from the rock
Eliot


Ontem fiz algo que não fazia faz um bom tempo: fui assistir um filme sozinho. Nos meus tempos de São Paulo isto era tão comum; ia ao cinema, no mínimo, duas vezes por semana, quase sempre sozinho. Assim assisti meu primeiro Felini na telona!

Assistir um filme sem estar acompanhado nunca me incomodou. Na maioria das vezes eu ficava estudando e trabalhando em casa até a cabeça pesar. Cansado, eu pegava o metrô e descia na Paulista; no caminho eu equilibrava um pouco o pensamento e cantarolava alguma coisa, quase sempre um samba do Adoniran.

Cinema. Eu movimentava minhas idéias e frustrações, correndo nas tumultuadas calçadas da Augusta, conseguindo pensar em coisas tristes com muita autoridade e segurança – aquela “parada” era a minha, ali eu nunca me passava por estrangeiro!

Teve uma vez que sai da sala em prantos, depois de assistir um filme do Kosta-Gravas chamado AMEN. Baqueado, encostei num balcão de padaria (essas padarias paulistanas...) e chamei um café; um senhor de cabelos brancos me olhou e sentenciou, “é a vida!”. Pois é, a vida!

Outra vez, após apreciar o documentário “Paulinho da Viola – meu tempo é hoje”, fui invadido por uma imensa vontade de beber cerveja até virar os olhos. Sozinho, me enfiei em outra padaria; na segunda garrafa já estava de papo com duas meninas do Mackenzie que cursavam alguma coisa chata que fiz questão de esquecer. Foi divertido e acabamos secando mais duas garrafas. Voltei pra casa cantando Nelson Cavaquinho.

Ontem foi estranho, pois me senti muito sozinho. Primeiro me sentia estranho naquele cinema, repleto de casais e grupos de amigos. Engraçado, mas sinto que fiquei intimidado naquele lugar, com lembranças que me colocavam muitas mais as topadas do que os acertos; estranho, novamente estranho.

O filme foi maravilhoso. “Diários de Motocicleta” coloca, sim, um discurso (e eu não entendo bem qual é o problema disto, afinal, o cinema em si é uma narrativa, um discurso elaborado em muitas direções). Gostei, e isto já é o suficiente agora (voltou ao filme em outra oportunidade).

Na saída, mirando a rua escura e vazia, desisti de buscar um café. Andei até minha casa assoviando algumas melodias que despertam alegrias e desviam a cabeça de memórias pobres. Fiquei tão cansado, e não foi pela caminhada!

Hoje acordei pensado neste “deslocamento” e numa visita que terei que fazer ao caos de Sampa na próxima semana. Juro que não queria ir, pois sinto também que aquela cidade não mora mais em mim; o difícil é saber que aqui eu também não me sinto em casa. Acabei por lembrar de outro filme, o “Raízes do Brasil”, recuperando uma sentença do Sérgio Buarque: “Somos desterrados em nossa própria terra”.

Espanta-me a falta de referências que tenho experimentado, encontrando tesão somente num amontoado de idéias escritos em três ou quatro livros. Espanta-me também um paradoxo que está ganhando campo entre meus sentimentos: quanto mais me desinteresso pelas mulheres e pelas pessoas, maior é o meu desejo de entender, assimilar e produzir pensamentos sobre a América Latina e o Brasil.

Vou pensar mais nisto, em silêncio, para não atrapalhar o ruído que o vento faz raspando em minha janela.