sexta-feira, dezembro 02, 2005

Gozo Fabuloso

Fui tão bom pra ela
Dei meu nome a ela
Tudo no princípio eram flores
Sem saber que eu era demais
Entre seus amores
Quase passei fome
Para honrar seu nome
Tropecei nos erros
De uma mulher sem alma
Mas eu não perdi a calma


Mulher sem alma
Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito



2002 foi o ano em que o Fluminense completou seu centenário de história. Fui até as Laranjeiras contemplar aquela construção bonita e aproveitei para, como faço anualmente, pecar na cidade do Rio de Janeiro. Fugi do congresso chato para comer os anéis de cebola empanados do Lamas. Gozo Fabuloso, assim, roubado de Leminski.

No meio do ano a situação apertou. Papai perdeu mais de metade de seu patrimônio para dois bancos e uma empresa de cartão de créditos. Doces anos FHC. Meu irmão tomou conta das despesas da casa, cortamos tudo o que podíamos e fomos nos segurando. Não me lembro de outro período tão bicudo, destes da gente deixar de consumir coisas que estiveram em nossas vidas o tempo todo. Foi e a gente superou.

Tinha acabado de passar na seleção de mestrado e voltado para Sampa. Desempregado e preparando o pedido de bolsa que, com muita sorte, viria dali uns sete meses. E veio. Neste ínterim, meu irmão bancou meu aluguel e meu pai me dava o dinheiro da semana, suficiente para os ônibus, almoçar e jantar. Eu me virava bem e sempre economizava para um cinema.

2002 foi o ano que namorei Júlia. Fui até o fim, mergulhando incessante nesta paixão, o meu primeiro amor de fato. E de falo. Como eu amava aquela mulher... Bastava uma pequena atenção de seus belíssimos olhos azuis que me satisfazia por dias, encantado. Tanto carinho e ternura que hoje percebo a minha ilusão. Mesmo assim, primeiro amor, tinha que atolar até a cintura no lamaçal.

Depois de muito pedir ela decidiu passar um final de semana comigo, em São Paulo. Ela e um amigo comum. Seriam os dias de um casamento de uma amiga historiadora, com uma grande variedade de marxistas uspianos reunidos numa igreja barroca em Minas Gerais. Nem eu acredito que deixei de ir neste evento para esperá-la no nosso final de semana. Mas esperei, gozando cada minuto.

O problema era dinheiro, claro. Economizei duas semanas, contando as moedas e gastos na agenda, meditando sobre o que era necessário. Duas semanas almoçando no refeitório da universidade, com sempre fazia, mas sem me preocupar com o jantar, dinheiro guardado para o grande final de semana. Não passei fome, o que seria ridículo dizer, mas deliberadamente optei por poupar o dinheiro do jantar e do café para me divertir quando ela e nosso amigo estivessem em minha República.

(O café preto eu tomava, viciado, na sala do meu orientador.)

Chegaram. Fui até o terminal encontrar com eles e estava me sentindo muito bem, feliz até onde conseguia ser. Olhos brilhavam, entende? Dias maravilhosos, com passeios no Centro, choro na Benedito Calixto, cerveja na Vila e flerte com a Paulista. Durante as noites eu esquecia de tudo e beijava cada parte do seu corpo, não deixando as curvas, ásperas ou lisas. Beijava e gozava, tremia na suavidade de amar em cheiro, toques e fluídos. Fiz valer cada centavo economizado.

Um mês depois ela me pediu um tempo pra pensar na relação e se foi. Fiquei arrasado e tomei toda a culpa para meu exagero que, de certo, tinha sufocado seu carinho. Diziam que perdi a mulher pela minha verte trágica e, aflito, acreditei nisto com força. Desesperei, emagreci quinze quilos, deixei de escrever poesias e meus cabelos começaram a cair. Em janeiro de 2003, quando voltei ao Lamas para comer os anéis de cebola empanados, estava irreconhecível. Chorei e perdi a vergonha de chorar.

Eis o tempo natural das coisas...

Melhorei, e muito. Ganhei a bolsa e estou concluindo a pesquisa. Papai vendeu muita coisa, quitou suas dívidas e hoje já começa a fazer outras. Voltei a escrever, engordei mais de vinte quilos e o Lula foi eleito presidente da República. Outras mulheres passaram por minha vida e, algumas, por minha cama. Com todas elas consegui aprender muito e, especialmente com uma, voltei aos destemperos de estar apaixonado. Pisando nas nuvens e com borboletas na barriga.

(Também assisti, inúmeras vezes, o Palmeiras jogar no Palestra Itália e, na finada geral do Maracanã, um Fla-Flu em que o tricolor venceu de virada.)

Sexta-feira encontrei com a Júlia. Ela estava linda, com os cabelos mais longos e um pouco mais encorpada. Apaixonada, levava o namorado pelas mãos. Vieram os dois cumprimentar o pessoal que estava comigo. Olhos nos olhos, aperto de mão firme e passei muito bem pelo namorado. Beijos nos rostos de meus amigos, e quando me levantava para lhe saudar, ela recuou com um sorriso amarelo e um constrangido “olá”. Confesso que gelei.

Foi meu primeiro amor, uma moça que hoje demonstra ter nojo de mim. Sou mesmo um imbecil, com o rosto marcado e os cabelos sempre despenteados, mas não para tanto. Estou muito longe da sombra de uma perfeição, mas a recuada eu não merecia. Paciência.

Ainda assim, fiquei confuso. Ainda estou. Que humanidade falida, pois não era pra ser assim. Aquilo foi amor, entende? Deste de fazer perder o ar e mergulhar no incerto.

Mergulhei.