sexta-feira, novembro 05, 2004

A descoberta do paraíso

Hoy que soy solo aliento,
vidala y madera, testimonio y sal,
por este amor tremendo,
parche que no suena
prefiere callar.
Volveré el hechizo en otro hechizo
caminando por la inmensidad.
Cuando la sangre grite
tal vez otro sueño me vuelva a pulsar.
Desandando
raúl carnota
A perfeita solidão há de ter pelo menos a presença de um amigo real.
nelson rodrigues
Observo o Paraíba do Sul marchar com suas águas tingidas de ouro e deixo meu pensamento solto, brincando em seu curso. O barulho do rio se embola com o do vento, um sopro das águas, levando folhas que ficam ainda mais verdes no mar dourado que insiste em lamber os barrancos, as costeiras, os troncos, as saudades. Quando volto as idéias ao encosto na ribanceira, temo não ser verdade tanta calmaria e satisfação. Meus olhos brilham em ver minhas comparsas ao meu lado e pressinto muita força naquele momento. O rio Paraíba do Sul continua passando e, com meus olhos de faróis, sigo encantado com as amigas que busquei reencontrar.

A descoberta do paraíso.

Desapareceu todo o cansaço, culpa ou lembrança amarga: somos nós e o rio. E, num momento, entendo que esta é a vida que movimenta meu sangue, alimenta os sonhos e cauteriza feridas. Uma força que nunca cessa marcada em nossas histórias, nossas lacunas, nossas tardes, nossas distâncias. Estamos ali juntos, passando.

Perto delas não sou nem grande, nem pequeno, mas de uma humilde imensidão. Carrego um vazio gigantesco e, nesta tarde, sinto que posso preenchê-lo com carinho, saudade, admiração e amor. O rio fluindo manso e as doces presenças aquietam minha alma, justo ela, tão cansada, tão vilipendiada, e sinto grande emoção em estar solidário, presente, vivo.

O mundo não mudou e os senões ainda são muitos. E, mesmo sem a declaração de guerra, sofro com a minha derrota pessoal, íntima. Mas ali, como se nada mais importasse, somos todos generais. E de nossa força conquistamos um saboroso devaneio, um poderoso sonho capaz de redimir nossos corações vazados.

O tempo firma, a neblina se dissipa. E a pintura finalmente é descoberta. Revela-se o paraíso.

Tanta coisa passa na cabeça, tantas idéias, tantos planos. Como é bom amar alguém. Como é bom dizer para uma pessoa que você gosta muito dela. Como é importante ter os olhos de faróis quando tudo parece cinza, quando o entusiasmo estanca ou quando a chama cessa, cansada de tremular.

E eu, sem porto, partida, deus ou fuga, tenho de volta um brilho e quero, apenas, amar com todo o sentimento do mundo.

3 Comments:

Blogger Bia said...

As águas passam
O rio nunca é o mesmo
nunca seremos os mesmos
o bom de reencontrar comparsas
é sacar que nunca somos os mesmos
estamos sempre diferentes
e ao mesmo tempo conectados
diferentes mas iguais.

10:19 PM  
Anonymous Anônimo said...

Que as águas do rio que não param de correr sempre tragam vcs para perto de mim...
Rita

10:31 AM  
Blogger Angelamô said...

Degan
Você conhece o raul carnota??????

Que maaaasssa!

Obrigada pelos comentários.
Beijão e saudades
Cuca

3:00 PM  

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